Uma visão geral sobre a conjuntura

Falar em crise poderia tornar-se um lugar comum nos discursos, não fosse os estudos e análises realizadas por intelectuais das mais diversas áreas que se dedicaram a examinar esse conceito.



Podemos ver autoridades, como Edmund Husserl, Hannah Arendt, Karol Wojtyla ou o historiador Reinhart Koselleck observando eventos e fenômenos a partir do que se significaria a enfermidade, a ruptura de processos e tradições.


É evidente que o atual cenário pode ser visto por essa perspectiva, é válida desde que tenha fundamentação. Portanto, faço minha primeira inserção sobre a conjuntura. Há muitas pessoas, com milhares de seguidores ou com poucos que acham muito, que opinam em demasia, entretanto, sem a devida reflexão ou fundamento. Pensar e achar faz parte das atribuições do ser humano, mas apresentar-se como intelectual, como autoridade sobre um campo ou uma dimensão do saber requer calma, investigação e tempo para que as idéias sejam assentadas. A Summa não foi escrita de uma sentada, a Critica pura da razão tampouco.

Quando se recorre de maneira leviana ao lexema Crise para construir um argumento, no fundo o serviço prestado é de intensificá-la, assim podemos ler, quando recorremos à proposta de Husserl. Se há uma crise, ela se deve pela carência de reflexão pela pobreza de espírito intelectual. Dito isso, porque o achar passa a substituir o saber. Vemos nas redes sociais, pessoas que não se formaram, que não curtiram os neurônios nas folhas de livros impalatáveis, que se abstiveram de pesquisar sobre a ideia ou a proposta que lhe desagradava, que se ocultou das criticas dos pares.


Essas pessoas que inventam títulos e formações, habilidades ou competências para em um processo de auto-afago. A crise da sociedade ou de pensamento, seria atribuída ao ímpeto de opinar sobre tudo e a todo momento. Para evitar esse vício, o sistema acadêmico contemporâneo desenvolveu algo muito interessante: a especialização. O especialista precisa ser respeitado, porque tem uma chancela institucional, social e comunitária de que sobre um campo ou uma dimensão do objeto de pesquisa é um experto. E isso é diferente de ter a verdade. Na Ciência não há verdade absoluta, mas aqueles que acham e opinião, trabalham como se soubessem a verdade sobre tudo.

Quando vemos uma pessoa que não deixa de inventar méritos e titulações, não só é ilegal, antes de disso é imoral. O desrespeito a deontologia é achincalhar a comunidade humana, que tanto investiu para construir a duríssimas penas, um sistema em que o pensamento fundamentado seja valorizado y respeitado. Atribuir-se um título é mentir à comunidade, porque se apresenta como um profissional consciente das normativas que regulam as práticas, para simplesmente tentar colar um achar, como um saber.

A crise começa a se consolidar quando qualquer voz é apresentada e compartilhada como creditada de virtudes. Não é. As grandes mentes da humanidade não se atreveram a tratar sobre todos os fenômenos e objetos, mas inclusive aqueles que foram bastante arrojados como Tomás de Aquino partiram de uma base estável e consolidada, antes que de um arroubo opinativo.


O saber ao contrário do achar é formado com método, com reflexão, com o tempo. Sem o método e a consolidação das reflexões, não se tem um saber, apenas um lampejo que poderia até chegar a algo, mas fica pelo meio do caminho, porque a pressa impediu a confrontação de linhas de pensamento ou visões divergentes sobre o mesmo objeto ou fenômeno.


Frente a essa leitura. Para ser historiador é preciso cumprir os ritos, respeitar as normativas e os métodos. Com ritos significa que precisa afastar-se do objeto, escrever sem envolvimento emocional, para que o resultado seja validado; normativa quer dizer que precisa respeitar os pares, ainda que discorde de suas conclusões, mas o caminho percorrido deve ser respeitado; submissão ao método é o mais essencial, partir da premissa de que a verdade é utópica, que as fontes devem falar por si mesmas, que os documentos precisam ser respeitados e que deve ser submetido aos pares, porque se apenas quem pensa igual aprova o resultado, significa que foi produzida uma apologia antes que ciência. Nesse caso, um achar infundado.

Aquele que inventa titulo de filósofo, teólogo, historiador ou jornalista é um inescrupuloso. Ademais sua opinião é invalidada por anacronismo, ao tentar colar a justificativa de que no passado não existiam titulações. Se quer ser reconhecido como palestrante, é preciso palestrar; se quer ser reconhecido como historiador é preciso produzir história (ciência). A crise se consolida quando se ignora os mais elementares atributos dos campos e dimensões do saber.


Autor: Reinaldo Cordova

Doutor e mestre em História pela Universidad de Murcia (Espanha). Especialista em Filosofia. Graduado em História com experiência profissional com na área de História Contemporânea, História da Igreja e História da Família. Professor na Educação Básica e no Ensino Superior. Participa regularmente de atividades acadêmicas, como seminários e congressos nacionais e internacionais. Membro fundador do "Projeto Colaborar". Autor de artigos e publicações sobre educação. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8398335033629040

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