Por onde anda a sua esperança? No tumulto do dia-a-dia?

No tumulto do dia-a-dia, onde fica a nossa esperança? Esse é o tema desta Esquina do Pensamento. Se o nosso país fosse uma casa, estaríamos tropeçando em vários objetos que estão fora do lugar. O risco de machucar a perna em algum móvel pelo caminho é quase certo. Mas nessa casa meio bagunçada, onde foi que colocamos a nossa esperança?



Sem esperança não conseguimos arrumar a casa. Você já olhou de forma desesperançada para uma pilha de vasilhas na pia? Sem alguma esperança e coragem você não começa. Mas não é qualquer esperança. O Paulo Freire fazia uma distinção muito interessante: a esperança boa é ação de esperançar dizia ele, e não de esperar.


A esperança nessa perspectiva nos coloca em movimento. Você olha para pia cheia de vasilhas sujas depois daquele grande almoço, respira fundo e se coloca em ação. É a esperança da pia limpa que nos movimenta. É preciso urgentemente recolocar a esperança no lugar central da nossa casa. Tanto no plano individual, como no plano coletivo.


A esperança é como um candeeiro ou um abajur que se colocado no alto, nos ajuda a enxergar o todo. Vendo o todo, nós passamos a enxergar não somente o que já existe, mas o que pode existir. Isso faz toda a diferença. Num trecho do livro Dom Quixote do Miguel Cervantes, ele diz o seguinte: a maior loucura de todas é viver a vida como ela é, e não como ela deveria ser. Você me entende que nós podemos viver fazendo o futuro possível acontecer.


É como uma viagem para o futuro sem sair do presente, mas antecipando o que já está grávido na realidade e só depende da nossa ação. O que já posso ser profissional e ainda não sou? Como pai? Como mãe? Como país? Olha só, o segredo é perceber o que do futuro já mora no presente e como podemos nos esforçar para antecipar essa potencialidade.


O Paulo Freire, que citei mais cedo, chamou essa ideia de inédito viável. É o sonho que já é possível realizar. Não é viver no mundo da lua, mas também não é se deixar afogar num pessimismo preguiçoso. A ilusão e o pessimismo possuem uma mesma origem: preguiça do pensamento.

A casa está muito bagunçada, talvez alguns de nós também estejam passando por um momento pessoal em que as coisas estão fora do lugar, pois bem, faz parte do da roda vida. Deixa eu te propor uma coisa: pega logo o candeeiro da esperança e coloca um pouco acima da sua cabeça – assim começaremos a achar as saídas que estão aí, mas ainda não estamos enxergando. Riobaldo, no Grande Sertão Veredas, nos faz o seguinte convite:

“o correr da vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Coragem, então!

Um abraço esperançoso e até a próxima Esquina.


Autor: Ricardo Mariz

Doutor em Sociologia, Mestre em Educação e Pedagogo. Membro do Grupo de Pesquisa Diálogos em Sociologia Clínica da Universidade de Brasília. Conselheiro do Movimento de Educação da Base da CNBB. Atuou na docência e gestão da educação básica, foi Pró-Reitor de Graduação, Pró-Reitor de Extensão e Reitor pro tempore da Universidade Católica de Brasília. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Cartografias dos Territórios de Aprendizagem”, financiado pelo CNPQ; Membro fundador do projeto “Esquina do Pensamento”. Autor de artigos e livros sobre educação.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0620569443986015

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